Pensei agora que nossos sentidos são as portas e janelas que permitem o acesso a nossa alma, essa coisa que sentimos possuir, nos habita, e não sabemos onde se localiza, se na mente, no coração, no corpo todo.
O pensamento surgiu após eu pensar (E é sempre assim, como as ondas, vem uma e mal se esparrama em espuma na praia, vem outra), que os artistas, os escritores em especial são tradutores dos sentimentos que nós, seres humanos não conseguimos expressar, dando os nomes, de onde vem, como agem e afetam nossas células, nosso ser e comportamento social, quando diante do outro, o estranho, o diferente, e não precisamos entrar aqui na descrição dos segregados.
Eles nos libertam das correntes que nos condenaram a acreditar em dogmas, sob a força da repressão, muitas vezes vestida com o manto da religião, o velho conto do bem e do mal, crime e castigo.
Não gosto de usar textos alheios . Parece que estou querendo surfar na onda deles, ou então passar uma imagem, de homem lido e letrado, mas se vocês não sabem, posso dizer, sem medo de errar, que entre ler e aprender, existe uma ponte (chamada realidade) que precisamos atravessar, e colocar em prática o amor, a solidariedade, a compaixão, a humildade, que é essencialmente saber que não somos maiores nem melhores, do que os outros.
No momento estou na ponte, e sempre que me sinto ,meio assim, meio assado, indeciso, encontro um artista que me devolve a confiança para continuar a travessia, como segue:
Sylvia Plath | A redoma de vidro
“O problema é que eu sempre fui inepto, só não tinha parado para pensar nisso. A única coisa em que eu era bom era conseguir bolsas e prêmios, e esse tempo estava chegando ao fim.
Eu me senti como um cavalo de corrida em um mundo sem pistas de corrida, ou um campeão de futebol universitário de repente se levantando para Wall Street com um terno de negócios, vendo seus dias de glória reduzidos a uma coisinha de ouro sobre a lareira, com uma data gravada como a data em um lápide.
Eu vi a vida se ramificando diante de mim como a figueira verde da história.
Da ponta de cada galho, como um suculento figo roxo, um futuro maravilhoso acenava e me tentava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era um poeta famoso, e outro figo era um professor brilhante, e outro figo era E.G., o fantástico editor, e outro figo era a Europa, a África e a América do Sul, e outro figo estava lá era Constantin e Sócrates e Átila e um bando de outros amantes com nomes engraçados e profissões bizarras, e outro figo era um campeão olímpico de remo, e além e acima daqueles figos havia tantos outros que ele não conseguia distinguir.
Eu me vi sentado na virilha daquela figueira, morrendo de fome só porque não conseguia decidir qual figo eu queria. Eu queria todos, mas escolher um significava perder os outros, e enquanto eu estava sentado lá, incapaz de me decidir, os figos começaram a enrugar e escurecer, e um a um eles caíram no chão aos meus pés.”

