Desejos Futuros

Pelo andar da carruagem, melhor dizendo, das naves espaciais indo e vindo, com turistas a bordo, podemos acreditar que não estamos longe de começar a ver espalhadas pelos grandes centros,  cabines de teletransporte, no molde daquelas charmosas e vintages cabines inglesas com um tablet exibindo um menu com os destinos, tempo de viagem, e o preço é claro, que é único, porque não existe opção de primeira classe  ou econômica .

Não é difícil imaginar, com a velocidade que a ciência avança, de vermos ao mesmo tempo, câmaras de restauração, Instaladas em unidades de saúde espalhadas pelos bairros, ligadas a uma central que coordenada por uma equipe de especialistas,
vão indicar o procedimento de acordo com a natureza dos danos e se o cidadão está em dia com sua operadora de saúde.

O meu desejo supremo que não tem nada de diferente daqueles emitidos por qualquer candidata a miss quando questionadas pela comissão julgadora, é o da Paz mundial e o fim da fome no mundo. Adicionaria também o desarmamento geral e irrestrito de todos os calibres, mas vem a franquia Star Wars me lembrar que o lobby das armas é mais forte do que podemos imaginar.

Por: adolfo.wyse@gmail.com

Playlist de Domingo

Vou começar com a Nara Leão cantando “Manhã de Carnaval”. “Um dia de domingo” não pode faltar,  cantada pela Gal e pelo Tim Maia. Caetano entra cantando “Coração Vagabundo” e dá um bis com “Sampa”. Elis canta “Como nossos Pais” de Belchior e convida Fagner para cantar “Mucuripe”. Gilberto Gil não podia faltar cantando “Domingo no Parque” e emenda um Pout Porri com “Aquele Abraço”, “Oriente” e “Expresso 2222”. Milton Nascimento canta “Caçador de mim”. Djavan canta “Lambada de serpente” e “Faltando um pedaço”. No bis a plateia pede “Oceano”. Prá não faltar o sotaque paulista temos “Trem das onze e Saudosa Maloca” com os Demônios da Garoa. João Bosco retrata a alma carioca com “Dois pra lá, dois pra cá”. Cartola, Chico e Noel Rosa vem no carro da velha guarda, cantando: “As rosas não falam”, “Quando o carnaval chegar” e “Último desejo”.

Por: adolfo.wyse@gmail.com

Uma palavra nova

Esta semana aprendi uma palavra nova que me levou a aprender uma lição. A palavra é excerto. Que significa, trecho, pedaço, parte de um texto literário. Para ilustrar cito os fatos: Entrei em um grupo de amigos da língua portuguesa e postei para causar impressão nada mais, nada menos, do que um trecho final do texto do José Saramago, sobre ninguém mais, ninguém menos, do que Fernando Pessoa. Em minha defesa, eu não tinha como copiar o texto inteiro do livro “O Caderno”, pág. 49.
Os coraçõezinhos começaram a bombar até que alguém postou o texto completo. Quando comentei agradecendo, ela me disse: – Pessoalmente não gosto de excertos… Perde um pouco o sentido.

Ao ler o texto completo que segue abaixo , vocês vão entender Todo o significado.

Voltando a palavra em pauta, apesar de não ser de uso corrente, ela está presente diariamente nas redes, onde trechos de grandes pensadores, escritores, filósofos,
vem embalados com uma celebridade de fundo, vendendo uma verdade fatiada, e por isso, sem sentido.

Assim, a partir de hoje, não postarei mais trechos que possam ser vistos como amostra grátis, quando em verdade são mutilações de obras. Imaginem chegar em uma livraria, como se fosse um açougue e pedir: me dê um quarto de Dom Casmurro, e dois de Memórias Póstumas de Brás Cuba. Sem falar no risco de o açougueiro responder: Do Machado não temos…pode ser do…?

Texto completo: Sobre Fernando Pessoa (José Saramago – O Caderno – Pág. 49)

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoa, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse:

“Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá- me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto.

Este Fernando Pessoa nunca chegou ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

Por: adolfo.wyse@gmail.com

Escrever

Já ouvi dizer que nas primeiras horas da manhã é o melhor horário para se escrever, quando as idéias e os sonhos,  as vezes, ainda estão frescos em nossa mente, sem sofrer a contaminação das primeiras notificações do dia.

Já tive no passado, como todo aspirante a escritor, aquela idéia romântica de que no silêncio da noite, a inspiração, essa musa de hábitos noturnos,  dá as caras para os iniciados. E a imagem de um quarto, uma mesa com uma máquina de escrever, um maço de cigarros e uma garrafa de whisky, se o filme for americano, uma de vinho se francês, completa o cenário.

Hoje em dia as coisas mudaram muito de figura, exigem novas configurações, um verbo que a turma antiga  tem muita dificuldade de conjugar. As novas gerações parece que já vem com ele instalado no sistema. E tem na mão uma máquina,  inclusive para escrever, que só falta respirar.

É um assunto vasto, como vasta é a literatura. Queiramos ou não, recorremos sempre aos grandes nomes, a turma que frequentou o tapete vermelho do Prêmio Nobel, em busca da receita mágica. Esta semana mesmo me encontrei pensando,  o quê Gabriel Garcia  Marques e José Saramago tinham em comum em seus históricos. E lembrei que ambos foram jornalistas por muitos anos.

Claro que isso não é uma pré-condição. Existem outros grandes autores que nos provam isso. Quanto a melhor hora para escrever será sempre aquela em que a folha em branco começa a ser habitada pelas letras miúdas, palavras imantadas, histórias encantadas.

Por: adolfo.wyse@gmail.com

Domingos

Domingo é dia de espreguiçar a alma e o corpo, depois de uma semana de batalha pelo pão de cada dia. Quem fatiou a semana em dias, sabia o que estava fazendo.
É dia de ir a praia, para quem tem praia por perto e gosta. Para quem tem nojinho de areia no corpo, a piscina do clube e uma sauna atendem essa turma.


Para os religiosos é dia de ir aos templos dos mais diversos credos. Depois do almoço que reúne a família toda em volta da mesa, e vai gerar assunto pra semana inteira, as opções são: O cinema, O estádio e o Prado, mais conhecido como o Jockey Club, o Hipódromo. No caso de cidades menores, que chamamos do interior, sem estes espaços, o lazer fica por conta dos eventos em volta do coreto na praça central.

Uma banda, um comício. Jovens exibindo suas roupas de domingo, alguns ostentando um estado civil, namorado, noivo, outros, os solteiros em bandos, buscando um relacionamento.

Domingo é dia de ouvir Gal Costa e Tim Maia cantando  ” Um dia de domingo” :

– Ver o sol amanhecer e ver a vida acontecer num dia de domingo -.

Por: adolfo.wyse@gmail.com