Solidariedade Feminina

Como quase todo domingo , eu e Tânia pegamos o metrô na estação São Francisco Xavier, ao lado de nosso prédio, para ir caminhar em Copacabana. Era uma composição destas novas, toda aberta, com bancos laterais dos dois lados. Estava ainda vazio e na próxima estação entrou uma jovem mulher com dois filhos. Um no colo com três anos de idade e segurando o braço do outro maior, com sete anos mais ou menos. Ela sentou no banco em frente e sentou um de cada lado. O maior, como toda criança faz, se agarrou naquele ferro no centro do carro e começou a rodar. A mãe pediu para ele parar e o puxou para o banco e ficou segurando o braço dele. O garoto se soltou e repetiu por duas vezes o movimento quando a mãe começou a alterar a voz para que ele parasse. Quando ele parou, mordeu o próprio braço. O pequeno ficou nervoso com toda a agitação, puxou a blusa da mãe e começou a mamar no seio esquerdo.

Neste momento, a Tânia levantou e sentou ao lado do garoto maior e começou a conversar com ele que foi ficando calmo. Foi quando olhei para a mãe e vi que chorava copiosamente.

Uma jovem mulher negra que havia sentado ao nosso lado com duas amigas e tinha acompanhado toda a situação levantou e sentou ao lado da mulher, abraçando-a e alisando o braço direito dela.
Quando chegou em Copacabana, observei que a mulher já não chorava.

Descemos e me senti agradecido por ser testemunha de um gesto tão grande de compaixão, sobretudo humano
.

Por: Adolfo.wyse@gmail.com

Tempo, tempo, tempo, tempo…

O tempo no sentido espacial da palavra, não no sentido climático, abraça e concede a todos, não o mesmo , que escorre para cada um como a areia da ampulheta.Mas aqui entramos na metafísica, terreno de areias movediças, assunto para filósofos e doutores. Encontrei nos versos de Martim Fierro, em um desafio com um moreno, uma definição mais acessível e poética, de se entender:



Moreno, vou te dizer

Segundo meu saber alcança,

O tempo é só um atraso

Do que está para vir.


Não teve nunca princípio

Nem jamais acabará,

Porque o tempo é uma roda

E roda é eternidade.


E se o homem o divide,

Só o faz, em meu sentir,

Para saber o que há vivido

ou lhe resta para viver.



Há um tempo para nascer. Um para morrer. E nesse intervalo, tempo para ser criança, brincar de ser imortal. Tempo para estudar, trabalhar, praticar esportes, ter atividades culturais, ler, ouvir música, ver filmes, assistir a peças teatrais e de circo. Tempo para casar, ter filhos ou pets, ou melhor ainda, os dois. Tempo para o social com os amigos e a comunidade, normalmente nos templos e clubes. Tempo para plantar e para colher. Tempo para as estações.

Alguns chamam de fases, outros de estágio, adotei depois de começar a assistir a NBA, basquete americano,que estou no terceiro quarto, rezando para chegar ao último quarto, onde ao fim e ao cabo, o jogo chega ao fim, e o resultado, vitória ou derrota, não tem mais importância, assim como os julgamentos e comentários alheios.

Hoje quando acordei me senti dentro de um elevador com outra pessoa, como o outro EU, que me dizia silenciosamente:  você com todo este teu banco de dados de palavras, acumulado na leitura dos grandes mestres da literatura, não é capaz de escolher um tema para a crônica de hoje? Com tantos assuntos em moda, como a COP 30 que está nesse exato momento discutindo os efeitos climáticos, enquanto furacões e ciclones desfilam pela América Central e do Sul.

Como sempre acontece nestes silêncios perturbadores, falei: Esse tempo tá esquisito, não é?

Por: adolfo.wyse@gmail.com

Um domingo democrático

Ouvi dizer através da grande mídia dominante, as redes sociais, que haverá hoje nos quatro cantos do País, uma grande manifestação popular, convocada, ainda não sei por quem, por qual partido, para protestar e demonstrar toda a indignação , aqui sim, do povo, diante da obscena aprovação da Pec da brindagem, leia-se, da bandidagem.

Grandes artistas de renome nacional estarão presentes, endossando e dando credibilidade ao movimento. Alguns não escaparão daquelas críticas, que foram contratados por algum patrocinador, para participar do grande evento, onde poderemos observar, como ao fim do jogo, aparece uma grade com as grandes marcas, atrás do jogador escolhido para a entrevista.
Alguns vão se defender dizendo que o grande cachê é aumentar a base de seguidores.

Nas cidades pequenas, aquelas que tem uma pracinha e um coreto em frente a igreja, ainda existem?, algumas dezenas de gatos pingados, vão ouvir discursos daqueles que tem voz na cidade. Lideranças políticas, de olho no próximo mandato.

Nas cidades grandes, e vou citar apenas duas, Rio e São Paulo, o palco será a Av. Atlântica e a Av. Paulista, pontos  consagrados para grandes manifestações.
Aqui sim, é impossível não ver as faixas e bandeiras com palavras de ordem e algumas marcas estampadas em camisetas.

Estimo e espero que aqui no Rio tenha um número igual ou maior do que as torcidas do Vasco x Flamengo hoje no Maracanã.Não vou a manifestação nem ao jogo no Maracanã. Um pouco por causa da minha idade, que não pode servir de desculpa para ninguém, que ainda consiga se locomover sozinho.

Se ao fim e ao cabo, todo este esforço popular e democrático, não sensibilizar a cambada do congresso, não vejo outra solução, e não é aquela radical recentemente expressada, de fazer uso das forças ocultas, nem tão ocultas assim, não é?, para fechar o congresso.

Fico com uma opção, não menos radical, mas muito mais de acordo com o exercício democrático, que se dá através do voto, expresso nas urnas, seja de modo impresso ou digital. que seria aquela sugerida pelo escritor José Saramago no livro” Ensaio sobre a lucidez”. No livro, no dia da eleição ninguém comparece aos locais de votação.

A primeira vista parece a solução ideal.
mas logo a fantasia é destronada pela realidade crua e nua. Teriam que ser convocadas novas eleições, e adivinhem quem seriam os  candidatos aos mandatos? Toda aquela mesma cambada, com algumas variações de parentesco.

Pronto! Falei! Não fui, não vou, não irei!
Estou apenas justificando meu voto!

Por: adolfo.wyse@gmail.com