Arquivo mensal: Dezembro 2025

Um Paysano e seu destino

No filme “Sem destino” uma ode ao movimento hippie de paz e amor que explodia nos anos 60, nas telas, na música com o festival de Woodstock, tem uma cena em que o personagem de Peter Fonda joga fora seu relógio de pulso como se assim se libertasse do tempo, como se o tempo não tivesse mais controle sobre ele.

Eu tinha então um relógio com o mostrador preto luminoso que eu ostentava e tinha um grande valor emocional porque tinha sido presente do meu pai, estivador, que tinha sido comprado de um gringo no porto,  portal de entrada de todos os importados e contrabandos.
Por isso e por já ser um bancário não joguei fora o meu relógio e muito pelo final do filme que mostra com muita violência, que a aventura de paz e amor, não chegaria a seu destino.

Com relógio ou sem relógio, vamos passar o tempo, a cada dia com mais passatempos, oferecidos nos mais variados formatos, pelas redes sociais, e aplicativos que deixam todos aqueles passatempos analógicos, no chinelo, quer dizer, aposentados.

Não uso mais relógio de pulso, como muita gente, mas não perdi o tique de ficar olhando o celular, hábitos enraizados da profissão de bancário.
O tempo não passa. Somos os passantes , seres espirituais em busca de um destino, que já ouvi alguém dizer que está escrito nas estrelas e que cada um,  sabendo disso ou não, vai chegar a seu destino.

O filme como aquele outro  “Cada um vive como quer” , são hinos a liberdade, mas mostram que não é bem assim que a banda toca, que a realidade é muito mais nua e crua, do que o cinema mesmo pode mostrar.
Mas vale muito, seja pela interpretação dos atores, Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson estreando no papel de um advogado alcoólatra.

Mas a cereja do bolo é uma estupenda trilha sonora, com o Steppenwolf cantando o tema do filme “Born to be wild” e “The Pusher”. E os conjuntos The Byrds, The Band, The Jimi Henrix Experience e The Fraternity of Man.

Por: adolfo.wyse@gmail.com

Solidariedade Feminina

Como quase todo domingo , eu e Tânia pegamos o metrô na estação São Francisco Xavier, ao lado de nosso prédio, para ir caminhar em Copacabana. Era uma composição destas novas, toda aberta, com bancos laterais dos dois lados. Estava ainda vazio e na próxima estação entrou uma jovem mulher com dois filhos. Um no colo com três anos de idade e segurando o braço do outro maior, com sete anos mais ou menos. Ela sentou no banco em frente e sentou um de cada lado. O maior, como toda criança faz, se agarrou naquele ferro no centro do carro e começou a rodar. A mãe pediu para ele parar e o puxou para o banco e ficou segurando o braço dele. O garoto se soltou e repetiu por duas vezes o movimento quando a mãe começou a alterar a voz para que ele parasse. Quando ele parou, mordeu o próprio braço. O pequeno ficou nervoso com toda a agitação, puxou a blusa da mãe e começou a mamar no seio esquerdo.

Neste momento, a Tânia levantou e sentou ao lado do garoto maior e começou a conversar com ele que foi ficando calmo. Foi quando olhei para a mãe e vi que chorava copiosamente.

Uma jovem mulher negra que havia sentado ao nosso lado com duas amigas e tinha acompanhado toda a situação levantou e sentou ao lado da mulher, abraçando-a e alisando o braço direito dela.
Quando chegou em Copacabana, observei que a mulher já não chorava.

Descemos e me senti agradecido por ser testemunha de um gesto tão grande de compaixão, sobretudo humano
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Por: Adolfo.wyse@gmail.com